Dois pacientes podem estar na segunda linha de tratamento do mieloma múltiplo e ter histórias muito diferentes. Um passou por transplante, respondeu por anos e agora recidivou. Outro não transplantou e precisou mudar cedo de esquema. Chamar ambos de "segunda linha" facilita a contagem, mas não explica a próxima decisão.
Para mim, essa é a pergunta que importa para quem planeja em onco-hematologia: com que exposição anterior o paciente chega à recidiva, por que o tratamento mudou e quais opções estavam realmente disponíveis?

A evidência brasileira já mostra parte do caminho. Uma análise da Unimed Paraná identificou 21 esquemas em 68 pacientes selecionados ao longo de 2014–2024. Em outra base privada, TOTEMM-B registrou 92 esquemas entre 892 pacientes classificados como inelegíveis para transplante. MMyBRAve reuniu informações clínicas de 943 pacientes em 17 centros e descreveu os esquemas iniciais mais usados.1–3
Os números de esquemas do Paraná e TOTEMM não são comparáveis entre si. MMyBRAve não traz uma contagem equivalente. Os estudos observaram populações, períodos e variáveis diferentes. O Paraná descreve uma única organização; TOTEMM usa dados administrativos e define "recidiva" pela mudança de linha; MMyBRAve traz contexto clínico de uma era terapêutica anterior. Juntos, reforçam a diversidade dos caminhos, mas não estimam o mercado nacional.
É nessa lacuna que precisamos trabalhar. Um paciente que não chegou à terceira linha pode estar em resposta duradoura, ter saído do acompanhamento ou simplesmente ter chegado ao fim da janela do estudo.
Para enxergar melhor a jornada, precisamos de ciclos mensais de revisão de prontuários de pacientes em tratamento. Cada ciclo registra a história até aquele momento: esquemas, resposta, motivo da mudança, acesso e tratamento atual. Com o tempo, poderemos acompanhar a adoção de novas opções e mudanças após diretrizes ou protocolos, sem atribuir causalidade apenas à tendência observada.
É essa a agenda de evidência que propomos para o maviePulse™. A próxima linha começa antes da troca. Entender a história que a precede, e atualizá-la enquanto a prática muda, torna a próxima decisão mais precisa.
Referências
- Ramos ER, et al. Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2026;35:e70439. doi:10.1002/pds.70439.
- Hungria V, et al. Curr Oncol. 2026;33:16. doi:10.3390/curroncol33010016.
- Hungria V, et al. Clin Lymphoma Myeloma Leuk. 2025;25:26–31. doi:10.1016/j.clml.2024.10.002.
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